29 de julho de 2010

A Igreja dos Terceiros Dominicanos

«Egreja dos Dominicanos» (1)

Várias Ordens religiosas ao longos dos séculos desenvolveram-se em 3 ramos diferentes: um ramo masculino de frades ou monges; um feminino de monjas ou religiosas e um terceiros de leigos (masculinos e femininos ou separadamente). Cada um destes ramos tinha a sua Regra de Vida aprovada canonicamente, em geral directamente pelo Papa/cúria romana, com diferentes formas de organização e estilo de vida, mas cada um dos ramos partilhando algum tipo de afinidade/continuidade espiritual ou de missão de um mesmo fundador. Assim foi com as ordens religiosas mais conhecidas, destacando-se no campo das Ordens Terceiras as referentes aos franciscanos, dominicanos e carmelitas.

A Ordem dos Pregadores (dominicanos) foi fundada em 1206 por S. Domingos de Gusmão e teve a sua Regra (masculina) aprovada em 1216 e a sua Ordem Terceira reconhecida e organizada em 1285. Presentes os dominicanos em Portugal desde 1217, e no Porto desde 1238, desde essa altura vários leigos se organizaram em volta dos conventos e comunidades de dominicanos, partilhando e vivendo da mesma espiritualidade e contribuindo para sua missão e/ou sustento. De várias localidades no país há relatos disso mesmo (ver História de São Domingos em 2 volumes, por Fr. Luís de Sousa, Editora Lello, 1977).

Pelo século XVII os movimentos laicais na Igreja tem um novo ressurgimento, fruto da maior autonomia, desenvolvimento, poderio económico e cultural das classes mais burguesas e mercantis um pouco por toda a Europa. 

No Porto é organizada e instituída oficialmente em 1633 a Venerável Ordem Terceira de S. Francisco, ainda existente nos dias de hoje. «Vendo crescer os seus sucessos», os vizinhos leigos ligados aos dominicanos   não se quiseram ficar atrás e em 1671 deram início à Ordem Terceira de São Domingos no Porto, oficializada e reconhecida em 1676 no Convento dos frades dominicanos do Porto.

E tal foi o sucesso e o número de irmãos e irmãs aderentes, que passados alguns anos  «consideraram alguns zelosos que a ordem terceira de Nossa Padre São Francisco tinha uma capela muito formosa unida ao convento, na qual se juntavam os Irmãos a ouvir as suas práticas, a frequentar os sacramentos, a fazer suas orações e tomar suas disciplinas; entraram em desejos e fazer uma semelhante capela porque até então tinham à sua conta a capela do Espírito Santo da nossa Igreja e nela exercitavam os seus espirituais exercícios  com algum detrimento dos religiosos, e para aliviá-los, aprecia conveniente fazerem nova Capela não só para os seus espirituais exercícios mas para jazigo dos Irmãos que naquela quisessem sepultar-se» (2). Resolvida a questão da localização (no adro em frente à Igreja do Convento de S. Domingos por cedência dos frades, a primeira pedra foi lançada em  18 de Dezembro de 1683 e inaugurada a 7 de Janeiro de 1685 e dedicada a Santa Catarina de Sena, também ela terceira dominicana (3).

Mas foi solução por pouco tempo, pois logo em 1712 e atendendo ao número crescente de membros, decidiram erigir nova e mais larga capela, ocupando parte mais alargada do adro e da rua defronte do convento sendo a primeira pedra lançada a 20 de Fevereiro de 1713 e inaugurada 10 anos depois, aos «onze dias do mês de Abril de 1723» (4). Para fazer face às despesas de construção e porque o altar-mor da capela primitiva não se adequava ao novo templo, foi o mesmo vendido ao «abade de Lamas na comarca da Feira», retábulo que é hoje o único vestígio conhecido da capela dos terceiros dominicanos.

Altar na igreja paroquial de Santa Maria de Lamas  (5)

Fosse pelo poderio económico dos leigos, fosse pela necessidade de os frades usarem a capela dos terceiros devido ao estado de ruína da Igreja conventual e falta de «cabedal» para a reerguer, fosse por quezílias muito humanas relativas ao poder, o certo é que desde o final dos anos 30 do século XVIII se instalou uma permanente disputa entre a Ordem Terceira e os seus vizinhos frades. A origem do conflito deve-se ao facto de os frades terem decidido em 1739 erguer uns arcos sobre o seu adro virado para o actual largo de S. Domingos fazendo ligação directa entre o seu convento e dita igreja dos terceiros, o que este levaram a mal. Todos os meios foram usados de parte a parte: tribunais civis, pedidos ao patriarca de Lisboa, ao Geral da Ordem, embaixadas em Lisboa e Roma,  e múltiplas intervenções do bispo, do rei do papa.

Em 14 de Maio de 1755 o Papa Bento XIV finalmente decreta por bula papal a extinção da Ordem Terceira de S. Domingos no Porto e a imediata criação da Arquiconfraria da Ordem da Santíssima Trindade e da Redenção dos Cativos (ainda hoje existente), para onde passariam automaticamente todos os ex-terceiros e respectivos legados e património. Precisando naquele tempo as bulas papais de «beneplácito régio», isto é de transcrição para a ordem interna, o Paço Real apenas mandou executar a primeira parte, da extinção e entrega provisória da administração dos bens aos bispo da cidade. E como nestas coisas as coincidências são isso mesmo (ou não...), a selagem e encerramento da Capela dos Terceiros pelos oficiais de justiça ocorreu precisamente no dia 1 de Novembro às 9.30 da manhã, preciso momento em que ocorreu o conhecido terramoto que também no local provocou largos estragos no convento.

Impedidos os novos confrades de constituírem oficialmente a sua nova ordem, passaram a reunir-se na Capela de Nossa Senhora da Vitória na Batalha, frente a Santo Ildefonso. Os frades dominicanos, vendo a sua boa disposição, ficaram com medo de perderem a dita capela que tanto ambicionavam, pelo que em 1778 «uzaram de hum grande sacrilegio que fizerão para com Deos e projuizo grave ao mesmo convento, tomarão por astusia de botar o fogo à sua propria egreja em hua sesta feita de tarde, tendo nesse dia o Santisimo sacramento exposto em que tam somente se queimou o tetulo da Igreja do arco do Cruzeiro para baixo até à porta cujo emsendio prencipiou por detras do altar da Snrº das Neves o qual mandarão botar por hum mosso do mesmo Convento - o qual ao depois o declarou que os frades o mandarão e por se saber o castigarão e lhe derão sumição que lá mais apareseo.» (6). Foi-lhes depois fácil solicitar e obter do rei autorização para usarem a igreja dos antigos terceiros por não terem outra....

E assim a usaram até que a 6 de Outubro de 1832 D. Pedro de Alcântara, regente em nome de D. Maria II ordenou à Comissão Administrativa dos Conventos Extintos ou Abandonados tomar posse do dito convento, apesar de este ter ainda 7 frades e 2  conversos e nunca ter sido abandonado... Mas face às  força nada se podia opor e a dita Comissão tomou posse, expulsou os frades fez o inventário e arrolamento de bens logo a 10 de Outubro e disponibilizou o espaço para serviços públicos e armazéns.

Passada a guerra e abandonado, ainda se fizeram planos para ali instalar uma nova e tão necessária Alfandega no Porto, mas a localização foi preterida para zona mais riberinha. Apenas em 1865 foram a hasta pública os bens e edifícios que restavam do Convento de S. Domingos no Porto, sendo adquiridos pelo Banco de Portugal que já ali estava instalado desde 1825 numa das lojas dos arcos virados para o largo do mesmo nome.

E a igreja? O desembargador Ferreira Borges, também presidente do Tribunal do Comércio que funcionava no antigo e vizinho convento de S. Francisco, empenhado já na construção do Palácio que veio a ser da Bolsa e por entender necessário que o mesmo ficasse em artéria desafogada e com acesso ao centro da cidade, antes que alguém reclamasse, numa noite de 1835, juntou meia dúzia de operários e de camartelo em punho demoliu a igreja (7).
Ficou a memória do executante no nome da rua que se inicia onde estava a igreja.


(1) in «Edifícios do Porto em 1833», Álbum de desenhos de Joaquim Cardoso Vitória Vilanova, Ed. Biblioteca Municipal do Porto, 1987;
(2) Fr. Simão do Sacramento OP, in A.OT (Arquivo da Ordem da Trindade) – Estatutos da Ordem 3ª, 1680, fls 22-26, transcrito por B. Xavier Countinho, «História documental da Ordem da Trindade», Vol. I, edição da Celestial Ordem da SS. da Trindade, 1972, Porto;
(3) ibidem pag.;
(4) id. pag. 72;
(5) id. pag. 81;
(6) id. pag. 250;
(7) Pedro Vitorino, in O Tripeiro, nº3 (173) 4ª série, Janeiro de 1931;

2 comentários:

rf disse...

caro Gabriel Silva: apesar de tardia encontrei a referência à imagem do Convento de S. Domingos. trata-se de "modelo para uma nova Alfândega 1822 "Planta n.º 6 Frente do Convento de S. Domingos" do Arquivo Histórico do Ministério das Obras Públicas AHMOP e reproduzida num texto do dr. Rui Basto Tavares, num álbum de 2 volumrs "Alfândega Nova - O Sítio e o Signo, por ocasião de uma Exposição com o mesmo nome no Museu dos Transportes e Comunicações em Fevereiro de 1995.

Gabriel Silva disse...

Caro amigo Ricardo Figueiredo,
Muito obrigado.
Já tinha lido refª ao projecto de adaptação do convento para Alfandega, mas não tinha ideia que fosse tão cedo, de 1822.
abraço,